Neste quarto vazio de tudo

Uma viagem sem regresso anunciado. O meu ponto de partida. Não sei para onde vou, para onde me levam estes meus pensamentos. Desejo escrever sobre mim, para um dia relembrar aquilo que fui, aquilo que eu não consegui ser, por quem viveu por mim e em mim, por quem deixou as suas marcas num tempo que nunca foi meu.

Aqui estou eu, neste quarto vazio de tudo. Uma espécie de lugar nenhum, onde me perdi no desenrolar dos dias, sem o desassossego do imprevisível, sem a ansiedade do amanhã que alimenta o mais modesto propósito de vida. Uma rotina enganadora, sem paz, uma luta sem regras entre a fantasia e a realidade. Eu confesso, não fui capaz de fazer melhor. Por não querer ou não saber, pouco importa. Foi a razão de ser, a razão da minha própria existência.

Foi a vontade de ser alguém, de não ser capaz de resistir à sedução e à inocência de sonhos dos que beijam a sorte. Foi a vontade de olhar para trás e dizer que fui alguém. Eu lutei, eu fugi, eu amei, eu perdi. Eu jurei, eu prometi, eu não sei, talvez tudo acabe sempre assim. Não sei onde começa o regresso…

Agora… agora resta o medo, medo de encarar o inverso de mim, neste quarto vazio de tudo. Estamos sozinhos, eu e tu, tu que sabes que não posso continuar assim. Tu sabes que tenho de encontrar as respostas aos porquês, que não posso esquecer esta culpa que sinto, que me atormenta na solidão, que não faz esquecer o amor traído pelas palavras. Tu dizes que não vale a pena deitar nem uma lágrima. Dizes apenas que não vale a pena…

Dizes que a madrugada não demora, para me consumir nas tentações da noite, à procura do pecado que alimenta a alma ferida, que faz esquecer o que um dia conquistei. Eu lutei, eu fugi, eu amei, eu perdi. Eu jurei, eu prometi, eu não sei, talvez tudo acabe sempre assim. Não sei onde começa o regresso…

Neste quarto vazio permaneço. Da janela, observo as folhas dançantes das árvores e a beleza da luz de Outono completa a minha tristeza. Uma estrada, uma viagem que é só minha, uma viagem sem regresso anunciado espera por mim, por quem viveu por mim e em mim.

Porque sei quem agora sou. Eu sou o que ninguém deseja ser.

Insónia – Acto IX

Recordo a minha primeira queda em criança, enquanto brincava com os meus primos numa tarde de Primavera. As reuniões de família eram habituais, e como eu adorava os almoços ao ar livre e o ritmo alucinante das minhas tias para que nada faltasse à mesa. Na noite anterior, a ansiedade derrotava o sono e o cansaço, preparava cuidadosamente a roupa de fim-de-semana e certificava-me na cozinha que o meu doce preferido não tinha sido esquecido. Sinto por vezes o seu aroma tão perto de mim…

Recordo a minha primeira queda, ao som das gargalhadas dos pequenos snobs de roupinha de marca. Chorei. Gritei. Jurei que nunca mais iria brincar na rua. Já não gostava das reuniões de família. Não queria ser mais criança.

Oh mãe, tu ordenaste à dor que se fosse embora. Gentilmente limpaste as minhas lágrimas com os polegares, e com a tua doce voz disseste-me: “já passou”. Estiveste junto a mim o resto da tarde, e eu orgulhoso pelo poder que me era conferido ao monopolizar a tua atenção. A nossa cumplicidade é a mais bela das memórias de infância.

Mas agora não estás aqui. Sei que não me podes ajudar. Tenho de travar sozinho esta batalha.

Ainda de cigarro na mão, absorvendo o silêncio e a tranquilidade dos arredores da cidade, procuro um refúgio nas lembranças de um rapaz franzido, tímido mas feliz. Penso que desta forma será mais fácil afastar a escuridão que invadiu o meu coração. Como o nevoeiro, quando assombra os navegadores na passagem pelo mar impiedoso e a luz do farol difunde-se na noite escura. Desejo regredir ao tempo da inocência e do aprendiz, aos primeiros desenhos e composições acerca das minhas tardes passadas em família. E chegar a casa, e ver-te mãe. Abraçar-te e dizer que gosto muito de ti.

De volta à realidade. À passagem lenta dos minutos da idade adulta. Ao silêncio novamente. Por pouco tempo.

Uma voz tensa e desesperada interrompe a minha comunhão com a ausência de sons. Aparentemente presencio uma acesa discussão. O volume sonoro da intensa troca de ideias e opiniões aumenta progressivamente, despertando a minha curiosidade e especial atenção. Vou até à fronteira do meu jardim, delimitada por densos e resistentes arbustos que não me impedem de reconhecer uma mulher sentada nos degraus da moradia vizinha. Durante largos minutos assisto ao fim de alguma coisa, uma despedida dolorosa como aquela que vivi, apenas diferenciada pela forma como é proferida a sentença. A mulher mistério tem a oportunidade de dizer não, de dizer sim, talvez nem por isso, não há tempo para indecisões, e ela não desiste, diz que sempre esteve ao seu lado, nunca se negou a nada, como é que alguém era capaz de magoar alguém assim desta maneira, não, não merece isso, cala-se e fica a ouvir, diz não-sim, levanta-se e caminha na minha direcção, olha para o telemóvel, já está a gastar muito dinheiro com quem não deve, diz sim, quer desligar e esquecer, aconselha a crescer e só depois aparecer, diz sim-não, não, sim, sim, não, talvez.

Os nossos olhares cruzam-se por momentos. Entre arbustos é certo, mas a cumplicidade e a empatia que se fazem sentir são constrangedoras para ambos. Para ela, a mulher mistério, é mais um impulso para a longa caminhada pelo jardim, em passos coordenados com o seu braço esquerdo que gesticula em todas as direcções. Acendo mais um cigarro e afasto-me.

– Peço desculpa! – Continuo a ouvir a mesma voz, mas parece que desta vez se dirige a mim.

– Vizinho!

Sem certezas, vou ao encontro da mulher mistério que agora chama por mim. O jogo do não-eu avisei que isto ia acontecer-sim-não vales nada-amor-ódio-não te quero ver mais-talvez-a culpa é minha-foi a última vez que isto aconteceu-só te quero a ti-já não me lembro de nada-a memória é curta-não sei se ainda sinto-não não tu és diferente-não-sim-não-sim-sim terminou.

– Sim…

– Vizinho, peço imensa desculpa se o incomodei. Estava a falar um pouco alto, e por aqui ouve-se tudo muito facilmente.

– Não tem problema. Eu é que peço desculpa mas como é tudo tão silencioso a estas horas, vim apenas ver se havia algum problema.

– Bem, de facto havia. Mas agora já passou, já estou mais calma.

E estava. A mulher mistério voltou a adoptar ao que parece a sua postura quotidiana. Confesso que me agrada este tipo de encontros imediatos de um grau qualquer.

– Isso é o que interessa. Bem, se precisar de alguma coisa já sabe. Não nos conhecemos, mas no fim de contas somos vizinhos – respondo eu de forma cordial, antecipando assim uma retirada estratégica. Já estava atraído pelo surrealismo da situação, que a juntar à inexistência do meu ser presente tornar-se-ia uma mistura inflamável e explosiva. Para isso, bastava-me brindar à vida com os fantasmas e repetir a dose da noite anterior. Mas ainda existe uma camada densa e alta de arbustos a separar-nos.

– Não sei se está sozinho, mas posso oferecer-lhe um café? Moro aqui há pouco tempo, e na verdade não conheço ainda ninguém aqui no bairro.

– Estou com uns amigos…

– Ahh, fica para a próxima então – interrompe a mulher que já não quer ser mistério. – Também já é tarde. Boa noite e peço desculpa mais uma vez pelo incómodo.

Tudo foi real

Deitado sob a pedra fria, percorrendo o fio condutor das fendas das paredes devastadas pelo tempo. Sensação de derrota, e ao mesmo tempo de leveza, por saber e não ser capaz de cair mais fundo.

As horas passaram. Os dias e os anos. E eu esperava. Por um rasgo de ilusão, ou simplesmente pela chegada do anjo da guarda a anunciar um novo estado de consciência, que se acredita ser eterno. Eu tenho razões para acreditar. Mas no fim, fiz mais do que isso.

A poeira que pousava no chão e nas mobílias vazias não me chegou aos olhos. É verdade. Mas também já não era preciso. Por estar cansado de ver e de sentir, decidi negar-me a tais privilégios e mergulhei num sono profundo, alienado daquilo que todos desejam e alimentam sentimentos de inveja perante a sua impotência para (re)conquistar.

Decidi comunicar com a realidade através da minha própria linguagem. Aprendi a admirar o negro dos dias, a caminhar por entre as sombras, a encolher os ombros e a transformar o conceito de normalidade.

De corpo gelado, tornei-me invencível. O mais ou menos bom, o mau que não conseguia ser, e o julgado. Vilão nem por isso, dadas as circunstâncias e a incapacidade de levar uma perseguição até ao fim. Oh, e como eu queria fugir, de tudo, de esquecer, de pensar porquê, de me culpar um pouco menos.

Continuei deitado. Na pedra cada vez mais fria. Cada vez mais impiedosa. Sem forças para me erguer, adormeci para não acordar e deparar-me que tudo à minha volta era real. Seria possível viver um sonho dentro do sonho? Sim. Foi possível. O meu sonho dentro de outro que não era da minha autoria, apenas fui empurrado por uma razão qualquer (a descobrir).

Sonhei com aquilo que sou e com aquilo que quero. Pensamentos intermitentes, mas desci uma escada até a um lugar que permaneceu escondido durante todo este tempo. Caminhei de uma forma desconfiada até a uma fonte de água. Pensei que só queria livrar-me de toda aquela poeira que me envolvia, e por isso, lavei a cara. Reconheci-me no reflexo, no espelho da vida. Voltei a saber quem sou.

Acordei. Queria voltar a sentir novamente, e levantei-me. A porta estava fechada, mas rodei a maçaneta. Nunca esteve trancada. Ao longe, uma luz intensa e atraente esperava por mim. Era a hora de deixar aquela casa. A hora de lutar. Pelo que quero.

Continuo a vislumbrar a luz no horizonte. Lembro-me muitas vezes da pedra e das paredes devastadas. O lugar onde não estive realmente, era perfeito. Mas sei que nunca mais voltarei lá.

Ausência

No outro dia disseste-me que sentias que estavas ausente. Da vida dos outros. E às vezes da tua própria, como que se estivesses num outro plano de consciência a observar em silêncio os teus movimentos. Dizes que te sentes desligado da mais pura verdade da nossa essência: a relação humana. Podíamos agora discutir o conceito, e até mesmo descobrir uma nova teoria para explicar o “porquê”, mas não vale a pena. É só mais uma ideia. Mais uma, menos uma, o que resta é sempre uma pergunta sem resposta.

Dizes que não te sentes parte de alguém, és um mero espectador de um filme em que podias muito bem ser o personagem principal. Mas não, dizes tu que preferes o papel de figurante, a passar rapidamente pela câmara com um ar muito apressado, apenas para criar uma sensação de dinâmica num cenário estático.

Dizes que foste esquecido, e que agora és apenas o tipo das boas intenções que aparece de vez em quando porque parece mal esta Ausência. Parece mal não sorrires quando o “inho” vem depois do teu nome. Dizes que és o tipo que não é reconhecido na rua pelos amigos. Dizes que o problema está no “que se é agora”. Se fosse o “que se foi”, seria diferente.

Confesso que já estou farto da tua conversa. Mas tens razão. A Ausência, filha do Sacrifício e da Esperança, é incompreendida. Não a suportamos, e nem tão pouco admitimos um mínimo de tolerância para com aqueles que a escolhem como companheira. Tens razão.

Não peças desculpa pela tua ausência.

Deseja o bem a todos aqueles que te esqueceram.

Relembra as luzes que acenderam por ti.

Guarda com humildade o que fizeste pelos outros.

O sonho é parte de ti. E tu parte dele.

Acredita sempre.

Suporta com todas as tuas forças os momentos de solidão.

Mas sozinho nunca estarás.

Serás tu o ausente? Agora fiquei confuso…

vírgula, parágrafo.

Que horas são?

Não acredito. Os ponteiros não esperaram por mim. A noite ultrapassa a minha vontade. O silêncio percorre a escuridão do meu quarto. O chão range e acompanha o uivar dos cães de guarda.

Que horas são agora?

Deve ser da almofada. Ou do lençol. Ou da cama. Ou do chão. Ou dos cães. Ou de mim. Ou das imagens cada vez mais desfocadas da televisão. Profundo… a cair…

Vem.

Não vou.

Vem.

Já te disse. Não vou.

Porquê?

Porque não quero.

Já não me queres?

Não sou obrigado a responder.

Já percebi, já não me amas.

Dizes tu.

Mas o que aconteceu?

Nada.

Diz-me. Eu preocupo-me contigo.

Duvido.

Posso fazer alguma coisa por ti?

Não. Já estou de partida.

Onde vais?

Não interessa. Vocês não compreendem.

Porque dizes isso?

Não iam sobreviver.

Então e nós meu amor?

O nós não existe. Nunca existiu.

Espera! Não te deixes enganar!

embarco numa viagem, não imagino o regresso, não tenho um rumo, apenas me deixo levar pela corrente do rio, a água é transparente como um riso de uma criança, ao longo da margem as tribos locais entoam cânticos, prestam homenagem ao sol, a luz a reflectir nas águas cristalinas, o verde do mato profundo esconde os belos animais selvagens, avisto o templo do grande chefe, os guerreiros acompanham-me agora no seu barco, um deles diz-me que o grande chefe espera por mim, a escolta abre caminho por entre a selva, contemplo o olhar do tigre, insiste comigo para decifrar a mensagem, não isso pode esperar, quero subir a escada, é o único acesso ao templo, sinto que estou perto da resposta, consigo ouvir as orações do grande chefe, deixo-me levar cada vez mais, cada vez mais, continuo a subir, mas agora começo a descer, cada vez mais, estou perto, as orações dançam nos meus ouvidos, já não consigo parar, mas não estou a subir, mas sei que estou perto, não vou desistir agora, continuo a descer, o desejo aumenta, a respiração ofegante, a roupa colada ao corpo, continuo a descer… descer… estou perto… tão perto… de tudo… a descer… perto… tudo… Agora faz frio, não sei onde estou, onde está o grande chefe, não consigo ouvir as suas orações, será que me atiraram ao rio, será que me estou a afogar, não, afinal não, consigo reconhecer as arcadas do templo, mas estou deitado, estou preso, tenho muito frio, não está ninguém por perto, grito mas ninguém me responde, o céu já não é azul, tenho sede, tento gritar novamente mas já não tenho forças, a serpente negra começa a percorrer o meu corpo, dança para mim, acaricia o meu pescoço… Sinto-me vazio, mas tranquilo, atravessei a ponte do rio, não é segura mas já não tenho medo, de olhos fechados sinto a brisa refrescante e perfumada do fim de tarde, os cavalos negros nos campos verdejantes, perto da aldeia esperam-me com ansiedade, a viagem foi longa, uma linda mulher espera por mim, os seus cabelos dançam também com a brisa, o meu nome é repetido vezes sem conta, não sei quem me chama, as imagens não são claras, não sei, tenho de chegar à outra margem do rio, a ponte parece não ter fim, a imensidão do nevoeiro, sei que estou perto,

Vai.

Vou.

Mas olha que nós não vamos.

Eu sei.

Não percebemos o que dizes.

Eu sei.

Já não te amo.

Eu sei.

Já não te queremos ouvir.

Eu sei.

Ninguém espera.

Eu sei.

Todos esquecem.

Eu sei.

Vais voltar um dia?

Não sei.

Então vai.

Vou.

Vai.

Fui.

Anestesia… e as luzes da cidade – Acto VIII

– Boa noite!

Os recém-casados. Inocência de Alice no País das Maravilhas. As primeiras aulas do mestrado da vida. Diogo e Rita anunciam a sua chegada depois de uma lua-de-mel, que a julgar pelos sorrisos e alianças cintilantes, será pelo menos inesquecível. A eterna viagem dos românticos na procura constante do paraíso e das promessas em forma de poesia. Ninguém é indiferente à grandeza do amor, e certamente por sete, dez, quinze, vinte dias todos nós recebemos o privilégio de sentir… o eu e o tu apenas, num lugar exótico qualquer.

Discretamente entras no círculo de recepção aos dois viajantes. Com duas garrafas de vinho.

Desconfio que ainda não te conseguiste separar da última carta escrita com o teu nome. O teu tom de voz acolhe os nossos amigos com ternura e saudade, mas o teu olhar confuso pede explicações e implora por equilíbrio. Quanto mais pensas, menos existes.

– Bem, já temos o vinho. Vamos para a mesa. Temos muito para falar! – diz Sofia, a habitual anfitriã deste tipo de cerimónias.

– Sim vamos. Depois a ver se temos tempo para ver as fotografias. Aquilo é de sonho! – responde Rita, a esposa feliz.

– Olhem que ela gastou tudo o que era cartão de memória. Se estiverem cansados, acho que vão adormecer antes de chegarmos ao segundo dia. – brinca Diogo, com aquele sentido de humor que às vezes nem ele próprio o compreende.

Diogo e Rita são a prova viva da teoria da atracção dos opostos. O pecador e o anjo cuja dependência mútua venceu o conservadorismo e as infidelidades. Sim, porque as promessas teimam em refugiar-se em poemas, e as rimas vendem-se caro. Diogo foi o aluno prodígio e ocupa agora um cargo importante na empresa do seu pai. A sua boa disposição intocável e a aparência cuidada fizeram dele o centro das atenções, o tipo com quem todos querem ir beber um copo e o príncipe de quem todas desejam ouvir uma serenata digna de Shakespeare. Mas no que toca a relações a tempo inteiro, Diogo sempre cantou desafinado.  Lembro-me das noites tornadas em dias em que a garrafa de whisky parecia não esvaziar, nós os dois,  atentos ao relato das suas conquistas e aventuras. Nunca cedi às torturas desencadeadas por Sofia para que eu assinasse uma confissão, mas para bom entendedor meia palavra basta. Nós sabemos, e sabemos que a Rita sabe. Só não sabe quem não quer saber. E quem sabe, prefere não saber.

Rita, o anjo. Amiga verdadeira e sempre presente. Psicóloga de profissão e de alma. Nos nossos tempos de adolescência, era a rainha da escola e destroçou muitos corações. Pois… o meu também. Hoje brincamos com a minha paixão juvenil e com a rejeição de que fui alvo, mas na altura lembro-me de chegar a casa, fechar-me no quarto e ouvir em repeat o “Boys don’t cry”. E a tentar não chorar. No fim de tudo, eu encontrei a mulher da minha vida e a Rita o sonho de ser livre… ou o pesadelo… não sei…

Sempre disseste que ambos fugiam das suas inseguranças e de um vazio camuflado. Rita desejava ser rebelde. E Diogo procurava sinceridade. E assim se desafia o alinhamento dos astros, o amor de Vénus e o vinho de Dionísio.

Tu desafias o teu destino. Veneras o mito de Orfeu.

Abrimos a segunda garrafa.

Sofia sussurra-me ao ouvido:

– Daniel, levas o carro hoje?

A tua delicadeza é a minha fraqueza.

– Sim claro, estás à vontade.

Só te quero ver feliz. Assim também eu o serei. Desafiamos a perfeição.

– Ainda não sei, mas se me derem alguns dias de férias agora, acho que vou aproveitar para fazer uma viagem. Mas a esta altura do ano… Vocês recomendam algum sítio? – perguntas tu.

– Porque não vais lá para baixo? – sugere Diogo – os meus pais não estão lá. Posso dar-te a chave já amanhã!

Sofia e Rita concordam com a ideia.

– Não sei… é uma ideia. Mas gostava de ir a um lugar desconhecido… acho que me ia sentir melhor.

Todos percebemos a tua intenção. Cortar ligações. Cortar a corda que te sufoca. A angústia que te coloca no limite.

Um breve silêncio. Quem cala consente. Concordo com o Diogo. Mas acho que faria o mesmo que tu.

Sofia muda subtilmente de assunto, e logo recomeçamos as nossas habituais discussões onde tu te enquadras tão bem. Embora preso a um horizonte longínquo, na lua sem a doçura do mel, a tua força manifesta-se na verdade e no carisma das tuas palavras. Tal como os versos que guardas em segredo.

Aprendeste a venerar o vazio. A segunda garrafa também.

– Bem vou ligar o portátil.

Respondemos ao apelo de Rita e vamos para a sala. Ficas para trás.

– Vou só fumar mais um cigarro.

De copo na mão, fixas o pensamento nas luzes da cidade. Chamam por ti, tal como a escuridão atrai o renegado. Tal como a dor alimenta o romântico.

Anestesia… e as luzes da cidade – Acto VII

Desço cuidadosamente a escada de caracol que dá para a adega. Enquanto o meu dedo desfila pelas prateleiras das garrafas de vinho tinto, começo a ouvir as vozes familiares dos meus amigos. Lá fora, o vento parece querer marcar presença transformando uma noite de Verão num cenário perfeito de Outubro. Mas tudo me parece tranquilo aqui em baixo. Apesar das conversas e da música dos Smiths, o silêncio acaba por dominar os meus sentidos e por isso resolvo permanecer por instantes, tentando interpretar uma beleza incógnita que se bem que me recordo… é aquilo a que nós, seres humanos apelidamos de paz de espírito. Mas não sei, posso estar a confundir a minha mente. Paz? De espírito? Ou serei eu sob o efeito da anestesia do inconsciente?

Um pouco atordoado pela sensação de alívio, acabo por escolher uma garrafa ao acaso.

Aproveito para contemplar a minha biblioteca, disposta estrategicamente no canto secreto daquela sala. Um pequeno candeeiro ilumina a colecção de livros e recordações de todos os lugares por onde passei. Foi aqui que vivi muitas noites académicas e reflexões sobre escritores e pensadores da nossa História, na companhia do vinho da adega, do fumo do cigarro sempre aceso, e ao som dos anos 50 e 60 com a ajuda de um gira-discos que me ultrapassa na idade. Foi aqui que escrevi os meus primeiros poemas sem aparente sucesso. Dizias que apreciavas as minhas palavras, mas não conseguias disfarçar a falta de convicção dos elogios politicamente correctos.

Se o espírito está em paz, ou o inconsciente em anestesia, não sei… Mas desejo permanecer mais um pouco. Por não saber quanto tempo vai durar, sento-me na cadeira da secretária para admirar esta tranquilidade suspeita, mas doce ao mesmo tempo.

Numa pilha de papéis supostamente organizados, está um envelope com o meu nome inscrito. A letra não me é estranha… é a tua. A carta que me esperava depois da madrugada do adeus. Coragem de uma deusa grega. Jamais ousaria redigir a proclamação da dor. Coração frágil à mercê da tragédia.

 As luzes da cidade não estão por perto…

 “Sei que tudo foi dito a noite passada. Mas quero que saibas que não vais sofrer sozinho. Só nos resta esperar que o tempo nos leve e nos faça renascer. Hoje é uma manhã de sol, e é sob a sua luz que te escrevo. Anseio por respirar uma vida nova. Não desejo viver de recordações. Eu vou seguir o meu caminho e acho que tu também deverias fazer o mesmo. Um beijo.”

 Tu és o meu passado. Foste o presente.

 Apago a luz e subo a escada de caracol com duas garrafas de vinho. Os meus amigos esperam-me.

 Onde estás?

 O vento levou a paz.

Anestesia… e as luzes da cidade – Acto VI

O vento parece soprar mais forte ao cair da noite. A brisa suave e reconfortante transformou-se. Dizes que é uma forma de Deus expressar a sua ira perante a passividade humana. Ao contrário do que sucedia noutros tempos o pecado agora morre sozinho, abandonado por quem o fez nascer. Enquanto tentas desfrutar da tua bebida, percebo que estás inundado novamente de pensamentos e teorias existenciais. Não dás descanso a ti próprio. Será que um dia te vais conseguir desligar das tuas reflexões e simplesmente apreciar um momento, por mais breve que seja? Parece fácil, mas caro amigo, não creio que esteja ao teu alcance. Estás destinado a pensar, por ti e por todos nós, e a verdade é que necessitamos das tuas interpretações para encontrar por vezes algum sentido nas nossas vidas.

Enquanto puxas de um cigarro e te sentas na poltrona que por direito próprio pertence ao teu pai, aguardo impacientemente junto à porta para o jardim. Sei que estás a chegar Sofia, mas todos os minutos que antecedem um beijo teu lembram-me a longa espera que tive de suportar quando estavas na tua aula de dança, e eu à chuva, a memorizar palavras de amor que tão cuidadosamente escrevi para que nada faltasse. Eu, tu, a chuva, a rosa vermelha e a minha canção para ti. Tudo perfeito para um pedido de namoro à antiga. Só faltou mesmo dançar como nos filmes. E aqui estou eu agora, novamente à tua espera…

– Eles já estão a caminho? – perguntas tu.

– Sim, foram só comprar o jantar. Sabes como é o Diogo. Mas a Sofia já apressou as coisas.

– Tudo bem. Também não estou com muita fome.

– Olha, vou é abrir uma garrafa de vinho. O que dizes?

– Digo que essa garrafa já deveria estar a meio por esta altura – esboças um sorriso.

A campainha toca.

– Olha são eles. – os meus olhos brilham.

– Vai abrir a porta que eu vou buscar o vinho – e num impulso sais da sala em direcção à adega.

Ao atravessar o jardim, reparo numa sombra junto aos arbustos que define a fronteira com a moradia geminada da esquerda. Tenho a sensação que está alguém a chorar do outro lado. Só o vento e as folhas das árvores conseguem ofuscar por vezes o som inquietante das lágrimas que correm. Bem, pode ser um lar a transbordar de felicidade.

A campainha toca segunda vez.  Dirigo-me ao portão.

– Olá.

Tudo perfeito. Só falta a chuva.

Um beijo. Como uma doce anestesia.

– O Diogo e a Rita? – pergunto eu.

– Estão mesmo a chegar. Recebi agora um sms da Rita.

– Ok, vamos entrando.

Percorremos o jardim em passo lento, como se de uma cerimónia se tratasse. É tempo de matar as saudades do presente. Do nosso lado direito, tudo parece tranquilo. Mas a sombra não desapareceu.

Anestesia… e as luzes da cidade – Acto V

Da janela do meu quarto vislumbro o mundo lá fora. Ao longe, as luzes da cidade desafiam-me para mais uma noite de traições existenciais e disfarces convenientes. Não desejo recordar o que fiz ou disse ontem, não sou eu que neste momento habita este corpo fragilizado pelos minutos que passam. Mas pelo seu cambalear, presumo que pelo menos tentei procurar a cura. Nem a água fria acalmou o ardor das feridas.

Chamas por mim. Meu amigo Daniel, deverei eu ter o prazer da tua companhia, ou chamar a mim os fantasmas da culpa e da sedução? Assim como tu, eles também estão sempre disponíveis para mim. Perante este dilema, procuro obter respostas no espelho ao fundo do corredor.

Nada me diz. Não gosto do que vejo. Não há respostas. Meu Deus, nada restou!

Apago a luz. Desço as escadas.

Tudo na mesma. Ontem é hoje. As flores exibicionistas colocadas na jarra da mesa da sala pela minha mãe ainda não murcharam. Observam-me com desconfiança, com receio da minha sede de tragédia, e que tente apagar o fogo da tentação com a água que as alimenta.

– Vou lá fora. Eles já chegaram. Preparei umas amarguinhas. Serve-te. – dizes tu.

Começo a pensar nos meus amigos fantasmas. Talvez não seja tão doloroso encarar a realidade tal como ela é, como o esforço do convívio social com seres humanos ou o cumprimento do protocolo “está tudo bem e tu?”. A anestesia será o remédio. Não a cura, eu sei, mas quando a estrada é longa e de difícil caminhada é bom poder descansar num abrigo improvisado. Desligar-me de tudo e todos. Esconder-me da razão e da emoção simultaneamente. Não sentir nada. Fingir que não existe sexto sentido.

Sinto a tua falta. O olhar, o beijo, o toque, os lençóis embrulhados. O sorriso, o riso, a travessura, a comédia. O vício, a fixação, a obsessão, o ópio! Em cada passo, cada gesto ou palavra lembro-me de ti, volto a lembrar, relembro e volto a relembrar. E fico à espera…

Sem resposta. Meu Deus nada restou!

Começo a ouvir vozes familiares. Agrada-me. Bem, por hoje deixo os fantasmas a descansar. Certamente a fadiga é imensa, o ritmo das nossas viagens tem sido intenso.

Amarga amarguinha. Doce anestesia. Tudo ao som dos Smiths… e as luzes da cidade à espreita…

Não feches a porta do quarto – Acto IV

Acordaste sem hora marcada. Provavelmente com o despertar do vento neste fim de tarde. Assim como tu, a sua presença é tímida mas sente-se à flor da pele, acompanhada pela dança irregular das folhas das árvores que tão secretamente contemplas da janela do teu quarto. Não é o sol da manhã, mas a natureza não se esqueceu de ti e proporciona uma cerimónia de boas vindas para mais um dia. Ou melhor, noite…

– Então, descansaste bem?

– Mais ou menos. Acho que ontem bebi demais. Não me lembro de ter chegado a casa.

– Eu depois explico. O pessoal vem cá jantar. A Sofia está a tratar disso. Eu vou descer para preparar as coisas lá em baixo.

– Parece-me bem. Vou só tomar um duche e desço para te ajudar.

– Sim claro. Até já então.

– Daniel! Olha…

– Sim diz.

– Alguma novidade? Não tens nada para me dizer? Como é fim-de-semana…

Sei que a minha resposta não é aquela que queres ouvir meu amigo…

– Não. Deixa lá, vai tomar banho e depois falamos melhor.

O desalento tomou conta dos teus olhos. O seu brilho devastado pela fatalidade da esperança, a lembrar os tempos em que as nossas fantasias de criança eram desenvolvidas em frente a uma montra de brinquedos. Os lábios colados no vidro deixavam a nossa marca naquele palco dos sonhos. Pois bem, a montra agora parece estar vazia para ti. A criança já não sorri, e não pula para reivindicar o que merece ter por direito. No momento em que disse “não”, confesso que me faltaram as palavras para terminar uma frase, mas a luta entre a razão e um amor que partiu é desigual. Por mais que te diga, sei que tudo vai continuar na mesma…

Desço as escadas. Está na hora de começar a preparar a mesa. Entre a sala moderna em tons de escuro e a esplanada da piscina em cores de oceano, a última opção parece ser a minha favorita. Lá fora, o silêncio e a brisa comunicam entre si trocando intimidades, interrompidos apenas pelos ruídos citadinos que se fazem sentir ao longe. Cuidadosamente, começo a escolher os pratos, copos e talheres. A tua mãe sempre teve bom gosto. As suas sistemáticas viagens pela Europa fizeram dela uma mulher na vanguarda das últimas tendências. E claro, a Sofia gosta de viver com estilo. Junto por isso o útil ao agradável.

Depois de um esforço para agradar a gregos e a troianos (penso que até fui bem sucedido), é hora da selecção musical. As velas acesas no centro da mesa pedem um Tom Yorke ou uns Broken Social Scene. O meu ecletismo nas artes permite-me caminhar de um extremo ao outro, e mais uma vez, só tenho que te agradecer por isso. Quando todos se preparavam para ouvir determinada banda, já tu recomendavas os melhores temas do disco. Quando olhava para a capa de um livro, tentando perceber se valia a pena, lá vinhas tu a dizer que me emprestavas o exemplar.

Tudo pronto. Subo novamente as escadas. Estás em frente ao espelho.

– Vamos descer?

– Sim, vamos.

– Eles devem estar mesmo a chegar. Vamos beber qualquer coisa. A mesa está lá fora.

O telemóvel toca. Mas só uma vez.

– Olha, já chegaram.

Descemos as escadas. Tenho saudades tuas Sofia. O meu passo acelera.

Ahh… optei pelos Smiths. Parece que os anos 80 voltaram.