Estás aí?

Não te consigo ver. Responde-me.

Não te consigo sentir. Respira.

Silêncio.

Subo as escadas. Degrau a degrau, penso no que te quero dizer. As luzes indirectas do corredor e os quadros surrealistas dispostos simetricamente sugerem uma travessia até ao mais profundo do teu mundo, onde ninguém parece querer ficar por muito tempo. O chão em madeira anuncia a minha presença, estou cada vez mais perto de ti. Mas continuo sem te ouvir…

 Tenho tantas perguntas para te fazer, quero compreender-te mas sei que não é fácil. Parece que às vezes queres desistir, outras vezes anseias por conquistar. Que se passa contigo? Não és a pessoa que conheci, mudaste, é um direito de todos nós… mas tu… vives agora conformado com as inevitabilidades e com os outros, como se fosses um fantoche, aquele que entra em cena com um ar tímido e caminha suavemente para não incomodar e passar despercebido.

Como eu gostava de ver novamente o teu sorriso sincero, o carisma de um grande líder, o entusiasta capaz de inspirar uma alma desacreditada. Não deixaste de ser essa pessoa, só te queres defender eu sei, mas compreende. Esta casa precisa de ti. Não te deites sobre a tua própria culpa, não alimentes os ladrões de sonhos que vivem na sombra, escondendo aquilo que realmente são.

Silêncio. A noite é longa… ou será infinita? Sinto que tenho a obrigação de te ajudar, porque tu também já me deste muito outrora. E também porque sou egoísta e egocêntrico. Talvez seja eu o carente ou o mendigo, à procura da minha própria salvação na tua pessoa. E à medida que caminho em direcção a ti, penso nos verdadeiros motivos pelos quais estou aqui contigo.

Ao fundo do corredor vislumbro um espelho, onde tu com tanta determinação admiravas os teus feitos e limpavas as marcas dos teus erros. Agora as feridas são mais profundas e o tempo não é mais teu amigo, mas eu sou. E decidido desejo ir ao teu encontro. Espreito o teu quarto, não hesito… não sei… é melhor regressar… acho que não consigo… Não! As pequenas arestas de luz a formar bonitos efeitos nas paredes dizem-me para entrar. Tu precisas de mim.

Silêncio.

Estás aí?