Dormes profundamente.

Estás com um ar triste. O desespero tomou conta de ti e muitas lágrimas te acompanharam até fechares os olhos. O teu rosto de inocência contrasta com as mãos de pecador entrelaçadas, suplicando aos anjos que te levem. Em bicos de pés afasto-me, ao som do relógio de parede que te foi oferecido pelo teu querido avô, como tu tão bem o lembras. Volto ao corredor e vislumbro novamente o espelho. Talvez numa tentativa de obter respostas, de pelo menos saber porque razão o meu amigo de infância vive acorrentado ao passado, e embarcou numa viagem sem fim, cujo preço do bilhete não é nada mais nada menos do que a nossa própria alma. Ah, e não é ida e volta…

Não feches a porta do quarto. A solidão é um estado de espírito necessário, mas nunca poderá ser a nossa melhor amiga. Um quarto vazio é um espaço onde a luz não entra, é frio e implacável nos seus julgamentos. Marca um encontro todas as noites com a loucura para que não te sintas desamparado, e o sufoco que sentes é a reacção do teu corpo ao seu beijo. É impossível resistir aos seus lábios frios e devoradores de mentes equilibradas.

Se me ouvisses agora, provavelmente irias como sempre mostrar o teu lado forte e perguntavas: “Oh Daniel, desculpa lá, mas como sabes isso tudo? Olha que isto não vem nos livros!”.

Sim, tens razão. Não vem nos livros.

É pura realidade. Mas também eu já tive esse direito.

“Direito de quê?” – mais uma das tuas perguntas.

De pura e simplesmente viver. Apenas isso… digo eu.

“Nunca me falaste nisso.”

O sol anuncia a sua retirada. Vou até ao jardim. Quando acordares estarei aqui. Entretanto, não feches a porta do quarto.