Subitamente acordo. Com o toque polifónico do meu telemóvel de terceira, quarta ou quinta geração que pouco ou nada faz por mim. Marcar, falar, desligar. Escrever, enviar, e voltar a escrever porque o texto suscitou outra interpretação. Resume-se a isto. Mas a música é engraçada.

– Estou?

– Olá… ainda por aí? Saí mesmo agora.

– Como te correu o dia?

– O costume. Fim do mês, sabes como é. Olha, estava a pensar passar por aí e levar o jantar. Estou a ver que que não vais sair daí tão cedo. Como está ele?

– Está a dormir ainda. A noite de ontem deve ter sido longa. Mas sim, era uma óptima ideia. Fala com o Diogo e com a Rita. Era bom jantarmos todos juntos.

– Ok. Vou só a casa mudar de roupa e compro o jantar em qualquer lado. Alguma sugestão?

– Não, escolhe tu.

– Daniel, estás bem?

– Sim. Estou apenas preocupado.

– Daqui a pouco estou aí. Beijo.

– Obrigado Sofia. Beijo.

Sofia é a minha companheira de alguns anos e muitos momentos. Sou um privilegiado por ter encontrado uma pessoa como ela. Às vezes penso nas razões que a levaram a falar comigo no bar da faculdade, e nunca cheguei a uma conclusão digna de registo. O amor é mesmo imprevisível.

Curso de Comunicação Social. Boa escolha. Ela, jornalista de uma revista de moda com um futuro brilhante pela frente. A promoção pelo menos está aí à vista. Eu fiquei-me pelo ensino, muito graças à influência de um professor cujas influências em mim são notórias. Juntos em qualquer altura e em qualquer lugar. Sempre me disseram que não existem relações perfeitas, mas sinto que ambos vivemos no céu. Desde o início que reconheço nela tudo o que não tenho, e o apoio mútuo proporciona uma estabilidade fora do vulgar nos dias de hoje. A balança das personalidades e feitios (como se costuma dizer) está equilibrada, em conformidade com a receita para uma relação saudável. Mas vocês sabem como é. Um pouco mais disto ou um pouco menos daquilo é o suficiente para alterar o resultado final. Até agora, amargo pouco, doce muito. O destino está do nosso lado, e só depende de nós.

Lembras-te daquela viagem a Milão? A Sofia foi em trabalho, e nós aproveitámos para conhecer a cidade. Dois casais que pareciam unha e carne. Guardarei sempre na minha memória aquilo que me disseste quando elas entraram numa sapataria e nós a fumar um cigarro, a segurar com as nossas vidas inúmeros sacos de compras. Uma panóplia de marcas, era só escolher.

“- Às vezes gostava que fosse sempre assim. Eu, ela e o Mundo. Mas sei que não é possível Daniel, e por isso temos que aproveitar tudo o que a vida nos quer dar. Nem que seja por breves instantes.”

E aproveitaste amigo. Podes estar de consciência tranquila.

Sms : “Já falei k o Diogo. Eles tb vão. E levam as fotos da lua de mel. Amo-te”.

Óptimo. Já não estamos juntos desde o casamento. Vai ser uma noite bem passada. Mas as fotos…

Está na hora de acordares. Subo as escadas. Vejo luz no teu quarto.

Não fechaste a porta. E o espelho ao fundo do corredor observa.