Acordaste sem hora marcada. Provavelmente com o despertar do vento neste fim de tarde. Assim como tu, a sua presença é tímida mas sente-se à flor da pele, acompanhada pela dança irregular das folhas das árvores que tão secretamente contemplas da janela do teu quarto. Não é o sol da manhã, mas a natureza não se esqueceu de ti e proporciona uma cerimónia de boas vindas para mais um dia. Ou melhor, noite…

– Então, descansaste bem?

– Mais ou menos. Acho que ontem bebi demais. Não me lembro de ter chegado a casa.

– Eu depois explico. O pessoal vem cá jantar. A Sofia está a tratar disso. Eu vou descer para preparar as coisas lá em baixo.

– Parece-me bem. Vou só tomar um duche e desço para te ajudar.

– Sim claro. Até já então.

– Daniel! Olha…

– Sim diz.

– Alguma novidade? Não tens nada para me dizer? Como é fim-de-semana…

Sei que a minha resposta não é aquela que queres ouvir meu amigo…

– Não. Deixa lá, vai tomar banho e depois falamos melhor.

O desalento tomou conta dos teus olhos. O seu brilho devastado pela fatalidade da esperança, a lembrar os tempos em que as nossas fantasias de criança eram desenvolvidas em frente a uma montra de brinquedos. Os lábios colados no vidro deixavam a nossa marca naquele palco dos sonhos. Pois bem, a montra agora parece estar vazia para ti. A criança já não sorri, e não pula para reivindicar o que merece ter por direito. No momento em que disse “não”, confesso que me faltaram as palavras para terminar uma frase, mas a luta entre a razão e um amor que partiu é desigual. Por mais que te diga, sei que tudo vai continuar na mesma…

Desço as escadas. Está na hora de começar a preparar a mesa. Entre a sala moderna em tons de escuro e a esplanada da piscina em cores de oceano, a última opção parece ser a minha favorita. Lá fora, o silêncio e a brisa comunicam entre si trocando intimidades, interrompidos apenas pelos ruídos citadinos que se fazem sentir ao longe. Cuidadosamente, começo a escolher os pratos, copos e talheres. A tua mãe sempre teve bom gosto. As suas sistemáticas viagens pela Europa fizeram dela uma mulher na vanguarda das últimas tendências. E claro, a Sofia gosta de viver com estilo. Junto por isso o útil ao agradável.

Depois de um esforço para agradar a gregos e a troianos (penso que até fui bem sucedido), é hora da selecção musical. As velas acesas no centro da mesa pedem um Tom Yorke ou uns Broken Social Scene. O meu ecletismo nas artes permite-me caminhar de um extremo ao outro, e mais uma vez, só tenho que te agradecer por isso. Quando todos se preparavam para ouvir determinada banda, já tu recomendavas os melhores temas do disco. Quando olhava para a capa de um livro, tentando perceber se valia a pena, lá vinhas tu a dizer que me emprestavas o exemplar.

Tudo pronto. Subo novamente as escadas. Estás em frente ao espelho.

– Vamos descer?

– Sim, vamos.

– Eles devem estar mesmo a chegar. Vamos beber qualquer coisa. A mesa está lá fora.

O telemóvel toca. Mas só uma vez.

– Olha, já chegaram.

Descemos as escadas. Tenho saudades tuas Sofia. O meu passo acelera.

Ahh… optei pelos Smiths. Parece que os anos 80 voltaram.