Da janela do meu quarto vislumbro o mundo lá fora. Ao longe, as luzes da cidade desafiam-me para mais uma noite de traições existenciais e disfarces convenientes. Não desejo recordar o que fiz ou disse ontem, não sou eu que neste momento habita este corpo fragilizado pelos minutos que passam. Mas pelo seu cambalear, presumo que pelo menos tentei procurar a cura. Nem a água fria acalmou o ardor das feridas.

Chamas por mim. Meu amigo Daniel, deverei eu ter o prazer da tua companhia, ou chamar a mim os fantasmas da culpa e da sedução? Assim como tu, eles também estão sempre disponíveis para mim. Perante este dilema, procuro obter respostas no espelho ao fundo do corredor.

Nada me diz. Não gosto do que vejo. Não há respostas. Meu Deus, nada restou!

Apago a luz. Desço as escadas.

Tudo na mesma. Ontem é hoje. As flores exibicionistas colocadas na jarra da mesa da sala pela minha mãe ainda não murcharam. Observam-me com desconfiança, com receio da minha sede de tragédia, e que tente apagar o fogo da tentação com a água que as alimenta.

– Vou lá fora. Eles já chegaram. Preparei umas amarguinhas. Serve-te. – dizes tu.

Começo a pensar nos meus amigos fantasmas. Talvez não seja tão doloroso encarar a realidade tal como ela é, como o esforço do convívio social com seres humanos ou o cumprimento do protocolo “está tudo bem e tu?”. A anestesia será o remédio. Não a cura, eu sei, mas quando a estrada é longa e de difícil caminhada é bom poder descansar num abrigo improvisado. Desligar-me de tudo e todos. Esconder-me da razão e da emoção simultaneamente. Não sentir nada. Fingir que não existe sexto sentido.

Sinto a tua falta. O olhar, o beijo, o toque, os lençóis embrulhados. O sorriso, o riso, a travessura, a comédia. O vício, a fixação, a obsessão, o ópio! Em cada passo, cada gesto ou palavra lembro-me de ti, volto a lembrar, relembro e volto a relembrar. E fico à espera…

Sem resposta. Meu Deus nada restou!

Começo a ouvir vozes familiares. Agrada-me. Bem, por hoje deixo os fantasmas a descansar. Certamente a fadiga é imensa, o ritmo das nossas viagens tem sido intenso.

Amarga amarguinha. Doce anestesia. Tudo ao som dos Smiths… e as luzes da cidade à espreita…