O vento parece soprar mais forte ao cair da noite. A brisa suave e reconfortante transformou-se. Dizes que é uma forma de Deus expressar a sua ira perante a passividade humana. Ao contrário do que sucedia noutros tempos o pecado agora morre sozinho, abandonado por quem o fez nascer. Enquanto tentas desfrutar da tua bebida, percebo que estás inundado novamente de pensamentos e teorias existenciais. Não dás descanso a ti próprio. Será que um dia te vais conseguir desligar das tuas reflexões e simplesmente apreciar um momento, por mais breve que seja? Parece fácil, mas caro amigo, não creio que esteja ao teu alcance. Estás destinado a pensar, por ti e por todos nós, e a verdade é que necessitamos das tuas interpretações para encontrar por vezes algum sentido nas nossas vidas.

Enquanto puxas de um cigarro e te sentas na poltrona que por direito próprio pertence ao teu pai, aguardo impacientemente junto à porta para o jardim. Sei que estás a chegar Sofia, mas todos os minutos que antecedem um beijo teu lembram-me a longa espera que tive de suportar quando estavas na tua aula de dança, e eu à chuva, a memorizar palavras de amor que tão cuidadosamente escrevi para que nada faltasse. Eu, tu, a chuva, a rosa vermelha e a minha canção para ti. Tudo perfeito para um pedido de namoro à antiga. Só faltou mesmo dançar como nos filmes. E aqui estou eu agora, novamente à tua espera…

– Eles já estão a caminho? – perguntas tu.

– Sim, foram só comprar o jantar. Sabes como é o Diogo. Mas a Sofia já apressou as coisas.

– Tudo bem. Também não estou com muita fome.

– Olha, vou é abrir uma garrafa de vinho. O que dizes?

– Digo que essa garrafa já deveria estar a meio por esta altura – esboças um sorriso.

A campainha toca.

– Olha são eles. – os meus olhos brilham.

– Vai abrir a porta que eu vou buscar o vinho – e num impulso sais da sala em direcção à adega.

Ao atravessar o jardim, reparo numa sombra junto aos arbustos que define a fronteira com a moradia geminada da esquerda. Tenho a sensação que está alguém a chorar do outro lado. Só o vento e as folhas das árvores conseguem ofuscar por vezes o som inquietante das lágrimas que correm. Bem, pode ser um lar a transbordar de felicidade.

A campainha toca segunda vez.  Dirigo-me ao portão.

– Olá.

Tudo perfeito. Só falta a chuva.

Um beijo. Como uma doce anestesia.

– O Diogo e a Rita? – pergunto eu.

– Estão mesmo a chegar. Recebi agora um sms da Rita.

– Ok, vamos entrando.

Percorremos o jardim em passo lento, como se de uma cerimónia se tratasse. É tempo de matar as saudades do presente. Do nosso lado direito, tudo parece tranquilo. Mas a sombra não desapareceu.