Desço cuidadosamente a escada de caracol que dá para a adega. Enquanto o meu dedo desfila pelas prateleiras das garrafas de vinho tinto, começo a ouvir as vozes familiares dos meus amigos. Lá fora, o vento parece querer marcar presença transformando uma noite de Verão num cenário perfeito de Outubro. Mas tudo me parece tranquilo aqui em baixo. Apesar das conversas e da música dos Smiths, o silêncio acaba por dominar os meus sentidos e por isso resolvo permanecer por instantes, tentando interpretar uma beleza incógnita que se bem que me recordo… é aquilo a que nós, seres humanos apelidamos de paz de espírito. Mas não sei, posso estar a confundir a minha mente. Paz? De espírito? Ou serei eu sob o efeito da anestesia do inconsciente?

Um pouco atordoado pela sensação de alívio, acabo por escolher uma garrafa ao acaso.

Aproveito para contemplar a minha biblioteca, disposta estrategicamente no canto secreto daquela sala. Um pequeno candeeiro ilumina a colecção de livros e recordações de todos os lugares por onde passei. Foi aqui que vivi muitas noites académicas e reflexões sobre escritores e pensadores da nossa História, na companhia do vinho da adega, do fumo do cigarro sempre aceso, e ao som dos anos 50 e 60 com a ajuda de um gira-discos que me ultrapassa na idade. Foi aqui que escrevi os meus primeiros poemas sem aparente sucesso. Dizias que apreciavas as minhas palavras, mas não conseguias disfarçar a falta de convicção dos elogios politicamente correctos.

Se o espírito está em paz, ou o inconsciente em anestesia, não sei… Mas desejo permanecer mais um pouco. Por não saber quanto tempo vai durar, sento-me na cadeira da secretária para admirar esta tranquilidade suspeita, mas doce ao mesmo tempo.

Numa pilha de papéis supostamente organizados, está um envelope com o meu nome inscrito. A letra não me é estranha… é a tua. A carta que me esperava depois da madrugada do adeus. Coragem de uma deusa grega. Jamais ousaria redigir a proclamação da dor. Coração frágil à mercê da tragédia.

 As luzes da cidade não estão por perto…

 “Sei que tudo foi dito a noite passada. Mas quero que saibas que não vais sofrer sozinho. Só nos resta esperar que o tempo nos leve e nos faça renascer. Hoje é uma manhã de sol, e é sob a sua luz que te escrevo. Anseio por respirar uma vida nova. Não desejo viver de recordações. Eu vou seguir o meu caminho e acho que tu também deverias fazer o mesmo. Um beijo.”

 Tu és o meu passado. Foste o presente.

 Apago a luz e subo a escada de caracol com duas garrafas de vinho. Os meus amigos esperam-me.

 Onde estás?

 O vento levou a paz.