– Boa noite!

Os recém-casados. Inocência de Alice no País das Maravilhas. As primeiras aulas do mestrado da vida. Diogo e Rita anunciam a sua chegada depois de uma lua-de-mel, que a julgar pelos sorrisos e alianças cintilantes, será pelo menos inesquecível. A eterna viagem dos românticos na procura constante do paraíso e das promessas em forma de poesia. Ninguém é indiferente à grandeza do amor, e certamente por sete, dez, quinze, vinte dias todos nós recebemos o privilégio de sentir… o eu e o tu apenas, num lugar exótico qualquer.

Discretamente entras no círculo de recepção aos dois viajantes. Com duas garrafas de vinho.

Desconfio que ainda não te conseguiste separar da última carta escrita com o teu nome. O teu tom de voz acolhe os nossos amigos com ternura e saudade, mas o teu olhar confuso pede explicações e implora por equilíbrio. Quanto mais pensas, menos existes.

– Bem, já temos o vinho. Vamos para a mesa. Temos muito para falar! – diz Sofia, a habitual anfitriã deste tipo de cerimónias.

– Sim vamos. Depois a ver se temos tempo para ver as fotografias. Aquilo é de sonho! – responde Rita, a esposa feliz.

– Olhem que ela gastou tudo o que era cartão de memória. Se estiverem cansados, acho que vão adormecer antes de chegarmos ao segundo dia. – brinca Diogo, com aquele sentido de humor que às vezes nem ele próprio o compreende.

Diogo e Rita são a prova viva da teoria da atracção dos opostos. O pecador e o anjo cuja dependência mútua venceu o conservadorismo e as infidelidades. Sim, porque as promessas teimam em refugiar-se em poemas, e as rimas vendem-se caro. Diogo foi o aluno prodígio e ocupa agora um cargo importante na empresa do seu pai. A sua boa disposição intocável e a aparência cuidada fizeram dele o centro das atenções, o tipo com quem todos querem ir beber um copo e o príncipe de quem todas desejam ouvir uma serenata digna de Shakespeare. Mas no que toca a relações a tempo inteiro, Diogo sempre cantou desafinado.  Lembro-me das noites tornadas em dias em que a garrafa de whisky parecia não esvaziar, nós os dois,  atentos ao relato das suas conquistas e aventuras. Nunca cedi às torturas desencadeadas por Sofia para que eu assinasse uma confissão, mas para bom entendedor meia palavra basta. Nós sabemos, e sabemos que a Rita sabe. Só não sabe quem não quer saber. E quem sabe, prefere não saber.

Rita, o anjo. Amiga verdadeira e sempre presente. Psicóloga de profissão e de alma. Nos nossos tempos de adolescência, era a rainha da escola e destroçou muitos corações. Pois… o meu também. Hoje brincamos com a minha paixão juvenil e com a rejeição de que fui alvo, mas na altura lembro-me de chegar a casa, fechar-me no quarto e ouvir em repeat o “Boys don’t cry”. E a tentar não chorar. No fim de tudo, eu encontrei a mulher da minha vida e a Rita o sonho de ser livre… ou o pesadelo… não sei…

Sempre disseste que ambos fugiam das suas inseguranças e de um vazio camuflado. Rita desejava ser rebelde. E Diogo procurava sinceridade. E assim se desafia o alinhamento dos astros, o amor de Vénus e o vinho de Dionísio.

Tu desafias o teu destino. Veneras o mito de Orfeu.

Abrimos a segunda garrafa.

Sofia sussurra-me ao ouvido:

– Daniel, levas o carro hoje?

A tua delicadeza é a minha fraqueza.

– Sim claro, estás à vontade.

Só te quero ver feliz. Assim também eu o serei. Desafiamos a perfeição.

– Ainda não sei, mas se me derem alguns dias de férias agora, acho que vou aproveitar para fazer uma viagem. Mas a esta altura do ano… Vocês recomendam algum sítio? – perguntas tu.

– Porque não vais lá para baixo? – sugere Diogo – os meus pais não estão lá. Posso dar-te a chave já amanhã!

Sofia e Rita concordam com a ideia.

– Não sei… é uma ideia. Mas gostava de ir a um lugar desconhecido… acho que me ia sentir melhor.

Todos percebemos a tua intenção. Cortar ligações. Cortar a corda que te sufoca. A angústia que te coloca no limite.

Um breve silêncio. Quem cala consente. Concordo com o Diogo. Mas acho que faria o mesmo que tu.

Sofia muda subtilmente de assunto, e logo recomeçamos as nossas habituais discussões onde tu te enquadras tão bem. Embora preso a um horizonte longínquo, na lua sem a doçura do mel, a tua força manifesta-se na verdade e no carisma das tuas palavras. Tal como os versos que guardas em segredo.

Aprendeste a venerar o vazio. A segunda garrafa também.

– Bem vou ligar o portátil.

Respondemos ao apelo de Rita e vamos para a sala. Ficas para trás.

– Vou só fumar mais um cigarro.

De copo na mão, fixas o pensamento nas luzes da cidade. Chamam por ti, tal como a escuridão atrai o renegado. Tal como a dor alimenta o romântico.