Que horas são?

Não acredito. Os ponteiros não esperaram por mim. A noite ultrapassa a minha vontade. O silêncio percorre a escuridão do meu quarto. O chão range e acompanha o uivar dos cães de guarda.

Que horas são agora?

Deve ser da almofada. Ou do lençol. Ou da cama. Ou do chão. Ou dos cães. Ou de mim. Ou das imagens cada vez mais desfocadas da televisão. Profundo… a cair…

Vem.

Não vou.

Vem.

Já te disse. Não vou.

Porquê?

Porque não quero.

Já não me queres?

Não sou obrigado a responder.

Já percebi, já não me amas.

Dizes tu.

Mas o que aconteceu?

Nada.

Diz-me. Eu preocupo-me contigo.

Duvido.

Posso fazer alguma coisa por ti?

Não. Já estou de partida.

Onde vais?

Não interessa. Vocês não compreendem.

Porque dizes isso?

Não iam sobreviver.

Então e nós meu amor?

O nós não existe. Nunca existiu.

Espera! Não te deixes enganar!

embarco numa viagem, não imagino o regresso, não tenho um rumo, apenas me deixo levar pela corrente do rio, a água é transparente como um riso de uma criança, ao longo da margem as tribos locais entoam cânticos, prestam homenagem ao sol, a luz a reflectir nas águas cristalinas, o verde do mato profundo esconde os belos animais selvagens, avisto o templo do grande chefe, os guerreiros acompanham-me agora no seu barco, um deles diz-me que o grande chefe espera por mim, a escolta abre caminho por entre a selva, contemplo o olhar do tigre, insiste comigo para decifrar a mensagem, não isso pode esperar, quero subir a escada, é o único acesso ao templo, sinto que estou perto da resposta, consigo ouvir as orações do grande chefe, deixo-me levar cada vez mais, cada vez mais, continuo a subir, mas agora começo a descer, cada vez mais, estou perto, as orações dançam nos meus ouvidos, já não consigo parar, mas não estou a subir, mas sei que estou perto, não vou desistir agora, continuo a descer, o desejo aumenta, a respiração ofegante, a roupa colada ao corpo, continuo a descer… descer… estou perto… tão perto… de tudo… a descer… perto… tudo… Agora faz frio, não sei onde estou, onde está o grande chefe, não consigo ouvir as suas orações, será que me atiraram ao rio, será que me estou a afogar, não, afinal não, consigo reconhecer as arcadas do templo, mas estou deitado, estou preso, tenho muito frio, não está ninguém por perto, grito mas ninguém me responde, o céu já não é azul, tenho sede, tento gritar novamente mas já não tenho forças, a serpente negra começa a percorrer o meu corpo, dança para mim, acaricia o meu pescoço… Sinto-me vazio, mas tranquilo, atravessei a ponte do rio, não é segura mas já não tenho medo, de olhos fechados sinto a brisa refrescante e perfumada do fim de tarde, os cavalos negros nos campos verdejantes, perto da aldeia esperam-me com ansiedade, a viagem foi longa, uma linda mulher espera por mim, os seus cabelos dançam também com a brisa, o meu nome é repetido vezes sem conta, não sei quem me chama, as imagens não são claras, não sei, tenho de chegar à outra margem do rio, a ponte parece não ter fim, a imensidão do nevoeiro, sei que estou perto,

Vai.

Vou.

Mas olha que nós não vamos.

Eu sei.

Não percebemos o que dizes.

Eu sei.

Já não te amo.

Eu sei.

Já não te queremos ouvir.

Eu sei.

Ninguém espera.

Eu sei.

Todos esquecem.

Eu sei.

Vais voltar um dia?

Não sei.

Então vai.

Vou.

Vai.

Fui.