No outro dia disseste-me que sentias que estavas ausente. Da vida dos outros. E às vezes da tua própria, como que se estivesses num outro plano de consciência a observar em silêncio os teus movimentos. Dizes que te sentes desligado da mais pura verdade da nossa essência: a relação humana. Podíamos agora discutir o conceito, e até mesmo descobrir uma nova teoria para explicar o “porquê”, mas não vale a pena. É só mais uma ideia. Mais uma, menos uma, o que resta é sempre uma pergunta sem resposta.

Dizes que não te sentes parte de alguém, és um mero espectador de um filme em que podias muito bem ser o personagem principal. Mas não, dizes tu que preferes o papel de figurante, a passar rapidamente pela câmara com um ar muito apressado, apenas para criar uma sensação de dinâmica num cenário estático.

Dizes que foste esquecido, e que agora és apenas o tipo das boas intenções que aparece de vez em quando porque parece mal esta Ausência. Parece mal não sorrires quando o “inho” vem depois do teu nome. Dizes que és o tipo que não é reconhecido na rua pelos amigos. Dizes que o problema está no “que se é agora”. Se fosse o “que se foi”, seria diferente.

Confesso que já estou farto da tua conversa. Mas tens razão. A Ausência, filha do Sacrifício e da Esperança, é incompreendida. Não a suportamos, e nem tão pouco admitimos um mínimo de tolerância para com aqueles que a escolhem como companheira. Tens razão.

Não peças desculpa pela tua ausência.

Deseja o bem a todos aqueles que te esqueceram.

Relembra as luzes que acenderam por ti.

Guarda com humildade o que fizeste pelos outros.

O sonho é parte de ti. E tu parte dele.

Acredita sempre.

Suporta com todas as tuas forças os momentos de solidão.

Mas sozinho nunca estarás.

Serás tu o ausente? Agora fiquei confuso…