Deitado sob a pedra fria, percorrendo o fio condutor das fendas das paredes devastadas pelo tempo. Sensação de derrota, e ao mesmo tempo de leveza, por saber e não ser capaz de cair mais fundo.

As horas passaram. Os dias e os anos. E eu esperava. Por um rasgo de ilusão, ou simplesmente pela chegada do anjo da guarda a anunciar um novo estado de consciência, que se acredita ser eterno. Eu tenho razões para acreditar. Mas no fim, fiz mais do que isso.

A poeira que pousava no chão e nas mobílias vazias não me chegou aos olhos. É verdade. Mas também já não era preciso. Por estar cansado de ver e de sentir, decidi negar-me a tais privilégios e mergulhei num sono profundo, alienado daquilo que todos desejam e alimentam sentimentos de inveja perante a sua impotência para (re)conquistar.

Decidi comunicar com a realidade através da minha própria linguagem. Aprendi a admirar o negro dos dias, a caminhar por entre as sombras, a encolher os ombros e a transformar o conceito de normalidade.

De corpo gelado, tornei-me invencível. O mais ou menos bom, o mau que não conseguia ser, e o julgado. Vilão nem por isso, dadas as circunstâncias e a incapacidade de levar uma perseguição até ao fim. Oh, e como eu queria fugir, de tudo, de esquecer, de pensar porquê, de me culpar um pouco menos.

Continuei deitado. Na pedra cada vez mais fria. Cada vez mais impiedosa. Sem forças para me erguer, adormeci para não acordar e deparar-me que tudo à minha volta era real. Seria possível viver um sonho dentro do sonho? Sim. Foi possível. O meu sonho dentro de outro que não era da minha autoria, apenas fui empurrado por uma razão qualquer (a descobrir).

Sonhei com aquilo que sou e com aquilo que quero. Pensamentos intermitentes, mas desci uma escada até a um lugar que permaneceu escondido durante todo este tempo. Caminhei de uma forma desconfiada até a uma fonte de água. Pensei que só queria livrar-me de toda aquela poeira que me envolvia, e por isso, lavei a cara. Reconheci-me no reflexo, no espelho da vida. Voltei a saber quem sou.

Acordei. Queria voltar a sentir novamente, e levantei-me. A porta estava fechada, mas rodei a maçaneta. Nunca esteve trancada. Ao longe, uma luz intensa e atraente esperava por mim. Era a hora de deixar aquela casa. A hora de lutar. Pelo que quero.

Continuo a vislumbrar a luz no horizonte. Lembro-me muitas vezes da pedra e das paredes devastadas. O lugar onde não estive realmente, era perfeito. Mas sei que nunca mais voltarei lá.