Recordo a minha primeira queda em criança, enquanto brincava com os meus primos numa tarde de Primavera. As reuniões de família eram habituais, e como eu adorava os almoços ao ar livre e o ritmo alucinante das minhas tias para que nada faltasse à mesa. Na noite anterior, a ansiedade derrotava o sono e o cansaço, preparava cuidadosamente a roupa de fim-de-semana e certificava-me na cozinha que o meu doce preferido não tinha sido esquecido. Sinto por vezes o seu aroma tão perto de mim…

Recordo a minha primeira queda, ao som das gargalhadas dos pequenos snobs de roupinha de marca. Chorei. Gritei. Jurei que nunca mais iria brincar na rua. Já não gostava das reuniões de família. Não queria ser mais criança.

Oh mãe, tu ordenaste à dor que se fosse embora. Gentilmente limpaste as minhas lágrimas com os polegares, e com a tua doce voz disseste-me: “já passou”. Estiveste junto a mim o resto da tarde, e eu orgulhoso pelo poder que me era conferido ao monopolizar a tua atenção. A nossa cumplicidade é a mais bela das memórias de infância.

Mas agora não estás aqui. Sei que não me podes ajudar. Tenho de travar sozinho esta batalha.

Ainda de cigarro na mão, absorvendo o silêncio e a tranquilidade dos arredores da cidade, procuro um refúgio nas lembranças de um rapaz franzido, tímido mas feliz. Penso que desta forma será mais fácil afastar a escuridão que invadiu o meu coração. Como o nevoeiro, quando assombra os navegadores na passagem pelo mar impiedoso e a luz do farol difunde-se na noite escura. Desejo regredir ao tempo da inocência e do aprendiz, aos primeiros desenhos e composições acerca das minhas tardes passadas em família. E chegar a casa, e ver-te mãe. Abraçar-te e dizer que gosto muito de ti.

De volta à realidade. À passagem lenta dos minutos da idade adulta. Ao silêncio novamente. Por pouco tempo.

Uma voz tensa e desesperada interrompe a minha comunhão com a ausência de sons. Aparentemente presencio uma acesa discussão. O volume sonoro da intensa troca de ideias e opiniões aumenta progressivamente, despertando a minha curiosidade e especial atenção. Vou até à fronteira do meu jardim, delimitada por densos e resistentes arbustos que não me impedem de reconhecer uma mulher sentada nos degraus da moradia vizinha. Durante largos minutos assisto ao fim de alguma coisa, uma despedida dolorosa como aquela que vivi, apenas diferenciada pela forma como é proferida a sentença. A mulher mistério tem a oportunidade de dizer não, de dizer sim, talvez nem por isso, não há tempo para indecisões, e ela não desiste, diz que sempre esteve ao seu lado, nunca se negou a nada, como é que alguém era capaz de magoar alguém assim desta maneira, não, não merece isso, cala-se e fica a ouvir, diz não-sim, levanta-se e caminha na minha direcção, olha para o telemóvel, já está a gastar muito dinheiro com quem não deve, diz sim, quer desligar e esquecer, aconselha a crescer e só depois aparecer, diz sim-não, não, sim, sim, não, talvez.

Os nossos olhares cruzam-se por momentos. Entre arbustos é certo, mas a cumplicidade e a empatia que se fazem sentir são constrangedoras para ambos. Para ela, a mulher mistério, é mais um impulso para a longa caminhada pelo jardim, em passos coordenados com o seu braço esquerdo que gesticula em todas as direcções. Acendo mais um cigarro e afasto-me.

– Peço desculpa! – Continuo a ouvir a mesma voz, mas parece que desta vez se dirige a mim.

– Vizinho!

Sem certezas, vou ao encontro da mulher mistério que agora chama por mim. O jogo do não-eu avisei que isto ia acontecer-sim-não vales nada-amor-ódio-não te quero ver mais-talvez-a culpa é minha-foi a última vez que isto aconteceu-só te quero a ti-já não me lembro de nada-a memória é curta-não sei se ainda sinto-não não tu és diferente-não-sim-não-sim-sim terminou.

– Sim…

– Vizinho, peço imensa desculpa se o incomodei. Estava a falar um pouco alto, e por aqui ouve-se tudo muito facilmente.

– Não tem problema. Eu é que peço desculpa mas como é tudo tão silencioso a estas horas, vim apenas ver se havia algum problema.

– Bem, de facto havia. Mas agora já passou, já estou mais calma.

E estava. A mulher mistério voltou a adoptar ao que parece a sua postura quotidiana. Confesso que me agrada este tipo de encontros imediatos de um grau qualquer.

– Isso é o que interessa. Bem, se precisar de alguma coisa já sabe. Não nos conhecemos, mas no fim de contas somos vizinhos – respondo eu de forma cordial, antecipando assim uma retirada estratégica. Já estava atraído pelo surrealismo da situação, que a juntar à inexistência do meu ser presente tornar-se-ia uma mistura inflamável e explosiva. Para isso, bastava-me brindar à vida com os fantasmas e repetir a dose da noite anterior. Mas ainda existe uma camada densa e alta de arbustos a separar-nos.

– Não sei se está sozinho, mas posso oferecer-lhe um café? Moro aqui há pouco tempo, e na verdade não conheço ainda ninguém aqui no bairro.

– Estou com uns amigos…

– Ahh, fica para a próxima então – interrompe a mulher que já não quer ser mistério. – Também já é tarde. Boa noite e peço desculpa mais uma vez pelo incómodo.