Uma viagem sem regresso anunciado. O meu ponto de partida. Não sei para onde vou, para onde me levam estes meus pensamentos. Desejo escrever sobre mim, para um dia relembrar aquilo que fui, aquilo que eu não consegui ser, por quem viveu por mim e em mim, por quem deixou as suas marcas num tempo que nunca foi meu.

Aqui estou eu, neste quarto vazio de tudo. Uma espécie de lugar nenhum, onde me perdi no desenrolar dos dias, sem o desassossego do imprevisível, sem a ansiedade do amanhã que alimenta o mais modesto propósito de vida. Uma rotina enganadora, sem paz, uma luta sem regras entre a fantasia e a realidade. Eu confesso, não fui capaz de fazer melhor. Por não querer ou não saber, pouco importa. Foi a razão de ser, a razão da minha própria existência.

Foi a vontade de ser alguém, de não ser capaz de resistir à sedução e à inocência de sonhos dos que beijam a sorte. Foi a vontade de olhar para trás e dizer que fui alguém. Eu lutei, eu fugi, eu amei, eu perdi. Eu jurei, eu prometi, eu não sei, talvez tudo acabe sempre assim. Não sei onde começa o regresso…

Agora… agora resta o medo, medo de encarar o inverso de mim, neste quarto vazio de tudo. Estamos sozinhos, eu e tu, tu que sabes que não posso continuar assim. Tu sabes que tenho de encontrar as respostas aos porquês, que não posso esquecer esta culpa que sinto, que me atormenta na solidão, que não faz esquecer o amor traído pelas palavras. Tu dizes que não vale a pena deitar nem uma lágrima. Dizes apenas que não vale a pena…

Dizes que a madrugada não demora, para me consumir nas tentações da noite, à procura do pecado que alimenta a alma ferida, que faz esquecer o que um dia conquistei. Eu lutei, eu fugi, eu amei, eu perdi. Eu jurei, eu prometi, eu não sei, talvez tudo acabe sempre assim. Não sei onde começa o regresso…

Neste quarto vazio permaneço. Da janela, observo as folhas dançantes das árvores e a beleza da luz de Outono completa a minha tristeza. Uma estrada, uma viagem que é só minha, uma viagem sem regresso anunciado espera por mim, por quem viveu por mim e em mim.

Porque sei quem agora sou. Eu sou o que ninguém deseja ser.